O desemprego atingiu, em 2025, sua mínima histórica: 5,6%. A população desocupada caiu 14,5%, a população desalentada recuou quase 10% e a renda — o valor anual do rendimento habitual — cresceu 5,7%. São todos resultados positivos e não há perspectiva imediata de reversão desse quadro; ou seja, a taxa de desemprego deve permanecer em patamar baixo, apesar da desaceleração da economia. A questão é a sustentabilidade desse nível no médio e no longo prazo. Sem aumento de produtividade, essa possibilidade é pequena, afirma Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre. Segundo ele, a produtividade brasileira está praticamente estagnada desde 2012 – ponto de partida da série histórica da Pnad, do IBGE- e sem aumento não é possível que a economia cresça com sustentabilidade.
— O resultado do desemprego é ótimo, mas é preciso melhorar a produtividade para manter esse percentual no médio e no longo prazo. E isso não tem acontecido: a produtividade brasileira está estagnada, quando o ideal seria crescer ao menos de 2% a 3% ao ano. Com o consumo das famílias e o impulso fiscal — fatores de expansão da economia — dando claros sinais de esgotamento, corremos o risco de viver um novo voo de galinha — diz Ataliba.
O pesquisador explica que a maior parte dos empregos criados está em setores de baixa qualificação e reduzida incorporação de tecnologia, como serviços, comércio, construção e setor público.
— Tivemos redução do desemprego sem ganhos de produtividade ou aumento do PIB potencial, que é a capacidade de crescimento sem gerar pressão inflacionária. Os números do Caged já mostram desaceleração. Não há como continuarmos abrindo vagas no ritmo observado anteriormente. Aliás, já é difícil explicar uma taxa de desemprego tão baixa com juros de 15% ao ano. A desaceleração da economia, portanto, já era esperada e é fruto da política monetária e da situação fiscal. Não há crescimento econômico sustentável sem crescimento da produtividade — reforça o economista.
E o ganho de produtividade, afirma Ataliba, exige investimento em educação, pesquisa e desenvolvimento, inovação e infraestrutura, inclusive digital. Nada disso, no entanto, nunca foi prioridade dos governos brasileiros, independentemente da corrente política, pondera. E explica:
— Esses investimentos têm retorno de médio e longo prazo, e sempre surge a questão de quem vai se beneficiar deles. O ciclo político desorganiza essa agenda. Para termos ganhos reais de produtividade e crescer com sustentabilidade, será necessária uma mudança de modelo. O alto endividamento das famílias, como mostrou a pesquisa da CNC, e a projeção fiscal para os próximos anos deixam claro que esses não serão os motores do crescimento de longo prazo — afirma.
Fonte: Jornal O Globo
30 de janeiro 2026