Volume chega a 49,8% dos rendimentos anuais. Consignado privado explode após novo programa do governo e sustenta expansão do crédito, mesmo com Selic em dois dígitos

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro aumentou 0,5 pontos percentuais em dezembro e chegou a 49,8% da renda anual em novembro, segundo relatório do Banco Central divulgado nesta quinta-feira. É o maior nível registrado durante este governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O recorde histórico foi atingido em julho de 2022, com 49,9%.

Na prática, isso significa que quase metade de tudo o que as famílias ganham ao longo de um ano já corresponde a dívidas, como financiamentos, empréstimos pessoais, crédito consignado e uso do cartão de crédito. O cálculo inclui todas as obrigações das famílias junto aos bancos e faz parte da pesquisa “Estatísticas Monetárias e de Crédito”, do BC.

O nível de endividamento das famílias chegou a cair no início do terceiro governo de Lula, até dezembro de 2023, primeiro ano do mandato, quando ficou em 47,7%. Naquele ano, o governo lançou em julho o Desenrola, programa para renegociação de dívidas, que vigorou até maio do ano seguinte.

Mas o endividamento voltou a subir em meio ao novo ciclo de aperto monetário. A alta da taxa básica de juros, a Selic – iniciada em setembro de 2024 – encareceu o crédito e pressiona o orçamento. A Selic está em 15% ao ano desde junho do ano passado.

Explosão do consignado privado puxa alta do crédito

Mesmo com esse aperto no orçamento provocado pelos juros, o crédito às famílias continuou crescendo. O saldo das operações livres para pessoas físicas somou R$ 2,5 trilhões em dezembro, alta de 13,2% no ano passado, ante 12,6% em 2024.

Um dos motivos que fez a concessão de crédito disparar no ano passado foi o programa Crédito do Trabalhador, criado pelo governo via medida provisória, em março. O crédito consignado privado saltou 90% no ano.

Também se destacaram as concessões de cartão de crédito, que cresceram 17,1%, o crédito pessoal não consignado, com alta de 18%, e os financiamentos para a compra de veículos, que avançaram 16%.

Comprometimento na máxima histórica

Com o avanço do endividamento, o comprometimento da renda das famílias com o Sistema Financeiro Nacional ficou estável em 29,3% entre outubro e novembro – patamar que representa a máxima histórica da série. Em 12 meses, houve avanço de 2,2 pontos percentuais.

Descontadas as operações imobiliárias, o comprometimento passou de 27,1% para 27%. Já o endividamento, sem considerar os financiamentos habitacionais, subiu de 30,9% para 31,3% no período.

Inadimplência em alta

O aumento das dívidas também veio acompanhado de piora na qualidade do crédito. A inadimplência no crédito livre às famílias atingiu 6,9% em dezembro, alta de 1,7 ponto percentual em 12 meses, segundo o BC.

Fonte: Jornal O Globo
28 de janeiro 2026