Estudo da CNC mostra ainda que quase 20% das famílias têm mais de metade da renda comprometida com o pagamento de dívidas, maior nível desde março. Inadimplência tem leve recuo
O percentual de famílias brasileiras endividadas voltou a crescer e alcançou 82% em julho de 2026, novo recorde, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulgados nesta quinta-feira. O resultado representa um avanço de 0,4 ponto percentual frente a junho (81,6%) e de 3,5 pontos percentuais na comparação com julho de 2025 (78,5%).
Para o economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, o Desenrola 2.0 teve um efeito paradoxal: ao aliviar parte do orçamento das famílias, abriu espaço para a contratação de novas dívidas, mesmo sem estimular o consumo.
— O Desenrola abriu espaço no orçamento das famílias, mas, com o patamar atual dos juros, esse alívio acabou sendo usado para buscar mais crédito e equilibrar as contas, não para aumentar o consumo. Os resultados do comércio continuam fracos, então o que vemos é um crescimento da demanda por crédito para reorganizar o orçamento doméstico — afirma.
Segundo Bentes, embora o programa tenha reduzido a inadimplência, ainda que de forma modesta, ele não ataca a principal causa do problema.
— A queda da inadimplência foi pequena, mas, para quem está com a água no pescoço, qualquer alívio faz diferença. O programa é bem-intencionado, porém não resolve a raiz do problema, que é o elevado custo do crédito no Brasil. Hoje temos desemprego em mínima histórica, renda crescendo acima da inflação e, ainda assim, endividamento e inadimplência permanecem elevados. Isso mostra o peso dos juros sobre as famílias.
Os dados mostram que o programa Desenrola Adimplentes, voltado a pessoas sem carteira assinada que estão endividados mas não estão com dívida em atraso, não surtiu efeito no primeiro mês de vigência. O programa foi anunciado em 29 de junho.
O vilão do endividamento continua a ser o cartão de crédito. Um total de 85% das famílias endividadas têm dívida no cartão. Em seguida vêm os carnês: 16% dos endividados recorrem a essa modalidade de crédito.
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da CNC revela ainda o aumento da parcela de consumidores com alto comprometimento financeiro. O percentual de famílias que têm mais de metade dos seus rendimentos mensais comprometidos com o pagamento de dívidas subiu para 19% em julho, atingindo o maior nível desde março deste ano.
Em média, os consumidores endividados estão vinculando 29,5% da sua renda mensal para honrar compromissos com credores. Essa parcela praticamente não muda nos últimos 12 meses.
Os números mostram, porém, que a inadimplência teve um leve recuo. A taxa caiu de 29,9% em junho para 29,8% em julho, nível inferior também ao registrado no mesmo período do ano anterior (30%).
A CNC atribui essa leve melhora ao Desenrola Brasil 2.0, disponibilizado em 5 de maio, com foco na regularização das dívidas atrasadas.
“Vemos sinais positivos de resiliência, seja pelo pagamento das dívidas com o programa Desenrola, seja com a massa de rendimentos e ocupação aumentando; porém, os números mostram que é preciso avançar em medidas que aliviem o bolso do trabalhador e, consequentemente, estimulem uma melhora do setor produtivo”, afirma o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, em comunicado.
Fonte: Jornal O Globo
06-08-2026