Mulheres motoristas terão juros de 11,5% ao ano em financiamentos de até R$ 150 mil; homens pagarão 12,6%

O governo federal lançou na tarde desta terça-feira (19), em evento no centro de São Paulo, uma linha de financiamento de carros para motoristas de aplicativos e taxistas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou medida provisória que autoriza o Ministério da Fazenda a repassar R$ 30 bilhões para o novo programa, que será operado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social).

A iniciativa faz parte do Move Brasil, que atualmente oferece linhas especiais de financiamento para compra de caminhões, ônibus e implementos rodoviários.

Em discurso durante o evento, o presidente Lula disse que o programa é vantajoso para os motoristas, que pagarão parcelas menores em relação ao aluguel de veículos.

“Por que que muitas vezes um companheiro que trabalha de Uber prefere alugar o carro? O argumento é que a manutenção é muito cara. Mas, [para] um carro novo, a manutenção vai ser mais rara. E o que vai acontecer é que você tá pagando metade do que você pagava [na locação]. É o seu patrimônio, que vai sobrar para os seus filhos, que vai sobrar para sua mulher, que vai sobrar para sua filha, que você pode vender na hora que você precisar vender para mudar de profissão”, afirmou o presidente.

As taxas de juros e os prazos de pagamento serão aprovados pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) ainda nesta semana. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, antecipou que a taxa será de 12,6% ao ano para homens e de 11,5% ao ano para motoristas mulheres.

As duas taxas ficam abaixo da taxa básica de juros (Selic), que hoje é de 14,5% ao ano, e da média do mercado. Dados do Banco Central mostram que a taxa média nos financiamentos de veículos em março deste ano foi de 26,6% ao ano para pessoas físicas e 18,5% ao ano para pessoas jurídicas.

Serão contemplados taxistas e motoristas de aplicativos com cadastro ativo há pelo menos um ano e, no mínimo, cem corridas no período nessa mesma plataforma.

Segundo o governo, o veículo precisa ser de montadora habilitada no programa Mover (Volks, Fiat, Renault, GM, Honda, Hyundai, Nissan, Peugeot, Toyota, BMW, BYD e GWM), custar até R$ 150 mil e ser enquadrado como sustentável (flex, elétricos ou híbrido a etanol).

Mercadante disse que montadoras concordaram em vender carros abaixo do preço de tabela para os motoristas que fizerem parte do programa. A MP diz que o Ministério do Desenvolvimento poderá estabelecer contrapartidas obrigatórias às montadoras de veículos a serem financiados pelo programa, o que inclui a definição desses descontos mínimos.

‘ORÇAMENTO PARALELO’

Os R$ 30 bilhões estimados para o programa entrariam na contabilidade como despesa financeira, o que não contaria para o resultado primário das contas públicas. Essa espécie de orçamento paralelo tem sido utilizada pelo governo para ampliar as benesses neste ano eleitoral.

Na semana passada, auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) apontou o uso de fundos públicos e privados para execução de políticas públicas fora do Orçamento regular. O órgão fala em “estruturas orçamentárias e financeiras paralelas” e recomenda que o Executivo interrompa essas práticas para maior transparência e controle.

Também presente no evento, o ministro Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência da República) afirmou que o governo lançará também cem pontos de apoio para os trabalhadores. Os espaços terão banheiro e tomadas para carregamento de celular.

Veículos que rodam somente com gasolina ou óleo diesel não poderão ser financiados pelo programa. O governo petista faz o possível para promover combustíveis renováveis, como etanol –preferencialmente produzidos no Brasil.


COMO SOLICITAR O FINANCIAMENTO

  1. Cadastro:
Motoristas elegíveis ao programa devem acessar a plataforma https://www.gov.br/mdic/pt-br/assuntos/sdic/move-brasil e autorizar o uso de dados para análise de elegibilidade.
  2. Confirmação:
A resposta da análise será enviada por meio da caixa postal do portal gov.br em até cinco dias após o cadastro.
  3. Escolha do veículo:
Depois da confirmação da elegibilidade, os motoristas poderão escolher, a partir de 19 de junho, veículos de até R$ 150 mil, de montadoras habilitadas no programa Mover. Os trabalhadores deverão procurar uma instituição financeira credenciada para solicitar o financiamento.
  4. Contratação:
O banco escolhido pelo motorista fará a análise de crédito e, se aprovada, concluirá a contratação com as condições do programa.

O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Igor Calvet, agradeceu a Lula no evento e disse que o programa também é benéfico para a indústria automotiva brasileira.

“Esse programa tem uma finalidade ótima para o consumidor final, para esses trabalhadores aumentarem a demanda. Quanto mais aumenta a demanda para os trabalhadores, mais aumenta a produção da indústria. E, quanto mais aumentar a produção da indústria, mantemos a produção, a soberania”, disse.

Lideranças da categoria também discursaram durante o evento.

“Essa medida é de máxima importância para centenas de milhares de trabalhadores que vão poder renovar suas ferramentas de trabalho para sustentar suas famílias e seguir com dignidade”, disse Fabíola Teixeira, presidente do Sindicato dos Taxistas Autônomos de São Paulo.

Leandro Cruz, presidente da Fenasmapp (Federação Nacional dos Sindicatos dos Motoristas de Aplicativo), disse que cobrou Anfavea e representante das montadoras chinesas para que abaixem os preços dos veículos.

“O presidente Lula está fazendo sua parte entregando subsídio para os trabalhadores. Mas queremos que vocês [montadoras] tenham o carinho de abaixar o preço para nós termos um carro melhor para trabalhar”, disse Cruz.

O anúncio do crédito para motoristas de aplicativos é parte de uma série de ações de Lula que visa a aumentar sua popularidade no ano eleitoral. O petista concorrerá à reeleição em outubro. Motoristas de aplicativo compõem uma categoria que o petista tenta atrair para sua base de apoio desde o começo do governo, mas tem dificuldades.

“As empresas de aplicativo exploram os trabalhadores como jamais em outro momento na história os trabalhadores foram explorados”, disse o petista pouco mais de dois meses depois de tomar posse como presidente da República.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo
20 de maio 2026