Levantamento mostra que profissionais de plataformas digitais trabalham, em média, 44,7 horas por semana e recebem praticamente o mesmo rendimento mensal dos demais trabalhadores do setor privado

O número de brasileiros que trabalham por meio de aplicativos de transporte, entrega e prestação de serviços chegou a 1,96 milhão em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 4 de setembro.

O levantamento mostra um cenário de forte expansão do trabalho por plataformas digitais, mas também revela uma diferença importante nas condições de trabalho: esses profissionais trabalham, em média, 5,4 horas a mais por semana do que os demais trabalhadores do setor privado e, mesmo assim, apresentam rendimento mensal praticamente igual.

Jornada de 44,7 horas por semana

Segundo o IBGE, os trabalhadores de aplicativos trabalharam, em média, 44,7 horas por semana em 2025.

Entre os demais trabalhadores do setor privado, a jornada média foi de 39,3 horas semanais.

Isso representa uma diferença de aproximadamente 5 horas e 24 minutos por semana.

Apesar de a jornada dos trabalhadores de aplicativos ter diminuído em relação a 2022, quando alcançava 46,4 horas semanais, ela continua significativamente superior à observada entre os demais trabalhadores do setor privado.

A diferença ganha ainda mais importância quando analisada em conjunto com a remuneração.

Rendimento mensal é praticamente igual

O rendimento médio mensal dos trabalhadores por aplicativos foi de aproximadamente R$ 3.147 em 2025.

Entre os demais trabalhadores do setor privado, o rendimento médio ficou em R$ 3.148.

Ou seja, praticamente não existe diferença no rendimento mensal médio.

O problema aparece quando se considera a quantidade de horas trabalhadas.

O trabalhador de aplicativo recebe, em média, R$ 16,20 por hora, enquanto os demais trabalhadores do setor privado recebem aproximadamente R$ 18,40 por hora.

Na prática, o rendimento por hora dos profissionais de plataformas é cerca de 12% menor.

Número de trabalhadores cresceu 18,4%

O contingente de trabalhadores por aplicativos aumentou 18,4% em 2025.

Foram aproximadamente 305 mil pessoas a mais em relação ao ano anterior, fazendo com que o grupo chegasse a 1,96 milhão de trabalhadores.

Eles representam cerca de 1,9% da população ocupada no país.

Para aproximadamente 1,8 milhão de pessoas, o trabalho por aplicativo era a atividade principal. Outros trabalhadores utilizavam as plataformas como fonte secundária de renda.

O levantamento de 2025 passou a considerar também pessoas que utilizam aplicativos como atividade complementar.

Transporte concentra a maior parte

Os aplicativos de transporte de passageiros concentram a maior parcela dos trabalhadores plataformizados.

Em 2025, aproximadamente:

  • 1,155 milhão trabalhavam em plataformas de transporte de passageiros;
  • 585 mil estavam relacionados a plataformas de entrega de comida e produtos;
  • 313 mil utilizavam plataformas para serviços gerais ou profissionais.

Considerando as categorias de transporte, cerca de 58,9% dos trabalhadores estavam nesse segmento.

As entregas representavam aproximadamente 29,9%, enquanto serviços gerais e profissionais correspondiam a cerca de 16%.

Motoristas também trabalham mais horas

Entre os motoristas de aplicativo, o rendimento mensal médio foi de aproximadamente R$ 2.873, contra R$ 2.805 dos demais motoristas.

Apesar de receberem um pouco mais por mês, os motoristas de aplicativo trabalharam, em média, 5,5 horas a mais por semana.

Quando o rendimento é calculado por hora, a situação se inverte:

  • motorista de aplicativo: aproximadamente R$ 14,40 por hora;
  • demais motoristas: aproximadamente R$ 16,00 por hora.

Assim, o rendimento por hora do motorista de aplicativo ficou cerca de 11,1% abaixo do observado entre os demais motoristas.

Motociclistas apresentam cenário diferente

Entre os motociclistas, o levantamento encontrou uma situação diferente.

Os motociclistas que trabalhavam por aplicativos receberam, em média, R$ 2.221 por mês, contra aproximadamente R$ 1.802 entre os demais motociclistas.

Nesse caso, o rendimento mensal dos profissionais de aplicativos foi maior.

Por hora trabalhada, os motociclistas de aplicativo receberam aproximadamente R$ 11,40, contra R$ 10,10 dos demais motociclistas.

Entretanto, o IBGE alerta que essa comparação é influenciada pela elevada informalidade entre os motociclistas que não trabalham por aplicativos. Entre os motociclistas tradicionais com carteira assinada, o rendimento por hora era superior ao observado nas plataformas.

Informalidade é um dos principais pontos de atenção

Outro dado que chama atenção na pesquisa é o elevado nível de informalidade.

Em 2025, aproximadamente 72,1% dos trabalhadores de aplicativos estavam na informalidade.

Entre os demais trabalhadores do setor privado, o percentual era de 42,7%.

A diferença também aparece na Previdência Social.

Somente cerca de 34% dos trabalhadores de aplicativos contribuíam para a Previdência, enquanto a cobertura entre os demais trabalhadores do setor privado chegava a aproximadamente 63%.

Isso significa que uma parcela significativa dos profissionais de plataformas pode ficar sem a mesma proteção previdenciária disponível para trabalhadores formalizados.

Por que as pessoas trabalham por aplicativos?

A flexibilidade aparece como o principal motivo para escolher esse tipo de trabalho.

Entre aqueles que tinham os aplicativos como principal atividade, os principais motivos foram:

26,8% — flexibilidade de horários e dias de trabalho;

24,6% — dificuldade para encontrar outro emprego;

20,8% — expectativa de obter rendimento maior do que em outras opções disponíveis;

16,6% — complementação da renda.

No caso de quem utiliza os aplicativos como atividade secundária, a complementação da renda ganha enorme importância: 87,7% apontaram esse como o principal motivo.

Perfil dos trabalhadores

O levantamento também mostra um perfil bastante concentrado.

Os homens representam aproximadamente 84,4% dos trabalhadores de aplicativos.

Além disso, 62,5% possuem ensino médio completo ou superior incompleto.

A faixa etária de 25 a 39 anos também possui participação expressiva entre esses profissionais.

Outro dado importante é que aproximadamente 86,8% trabalham por conta própria, enquanto apenas uma parcela menor aparece como empregada do setor privado.

Renda praticamente estagnada

Outro ponto destacado pelo IBGE é a evolução da renda ao longo dos últimos anos.

Em 2022, o rendimento médio mensal dos trabalhadores de aplicativos estava em aproximadamente R$ 3.115.

Em 2024, chegou a cerca de R$ 3.151, mas caiu levemente para aproximadamente R$ 3.147 em 2025.

Na prática, houve pouca evolução da renda no período.

Enquanto isso, o rendimento médio dos demais trabalhadores do setor privado aumentou aproximadamente 10,6% entre 2022 e 2025.

Com isso, a vantagem de rendimento que os trabalhadores de aplicativos apresentavam no início da série praticamente desapareceu.

Segundo análise divulgada junto aos dados do IBGE, a estagnação está relacionada principalmente ao comportamento da remuneração de motoristas e motociclistas, que representam grande parte dos trabalhadores de plataformas.

O que os números revelam?

Os dados mostram uma contradição importante no mercado de trabalho por aplicativos.

De um lado, as plataformas oferecem flexibilidade, permitindo que o trabalhador escolha, em maior medida, quando e onde trabalhar.

De outro, essa flexibilidade não necessariamente significa uma jornada menor.

Na prática, os trabalhadores de aplicativos apresentam uma jornada média superior à dos demais trabalhadores do setor privado e recebem praticamente o mesmo valor mensal.

Quando a remuneração é calculada por hora trabalhada, a diferença fica ainda mais evidente: R$ 16,20 contra R$ 18,40 por hora.

Além disso, a elevada informalidade e a baixa cobertura previdenciária representam pontos importantes de preocupação para a proteção social desses profissionais.

Trabalho por aplicativos cresce em meio ao debate sobre jornada

Os dados divulgados pelo IBGE ganham importância adicional em um momento em que o Brasil discute mudanças na jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

Enquanto o trabalhador tradicional possui regras estabelecidas pela legislação trabalhista, grande parte dos profissionais de plataformas atua sem vínculo formal e sem a mesma cobertura de direitos.

O crescimento desse modelo de trabalho coloca no centro do debate questões como jornada, remuneração, contribuição previdenciária, proteção social e regulamentação das plataformas digitais.

A expansão do setor indica que o trabalho por aplicativos já representa uma parcela relevante do mercado de trabalho brasileiro e deverá continuar sendo um dos principais temas das discussões sobre o futuro das relações de trabalho.

📌 Principais números

Indicador Trabalhadores de aplicativos Demais trabalhadores do setor privado
Trabalhadores 1,96 milhão
Jornada semanal 44,7 horas 39,3 horas
Rendimento mensal R$ 3.147 R$ 3.148
Rendimento por hora R$ 16,20 R$ 18,40
Informalidade 72,1% 42,7%
Contribuição à Previdência 34% 63%

Fonte: IBGE — PNAD Contínua: Trabalho por meio de plataformas digitais 2025. Dados divulgados em 4 de setembro de 2026.

Fonte: UOL Economia
04-09-2026